domingo, 18 de novembro de 2007

La merd!

É, tenho que confessar cá com meus botões que dia 12 de junho não era uma data em que imaginasse passar sozinha, afinal era uma das mais namoradeiras entre minhas amigas e NUNCA havia passado um dia dos namorados sem receber flores, digamos assim.
Ok, eu e o Beto havíamos brigado mais uma vez e por ironia do destino a briga 25º cairá justo na semana de 12 de junho de 2006.
Confesso que ao contrário de outros momentos como esse, eu estava tranqüila, sossegada em casa, talvez por que fosse uma segunda – feira, talvez por que soubesse que o que não há solução, solucionado está. Anyway, era uma noite quente e para minha surpresa a campainha tocou.

- Oi Gorda, vim jantar com você, posso? Sabia que estaria sozinha, trouxe até uns bifinhos frescos e umas batatas pra gente comer.
Oi Pai, ué (não pude conter minha cara de espanto), achei que ia sair com a sua namorada, com a ...
- ...A Ruth minha filha. Pois é, não somos mais namorados, pra te dizer a verdade nem sei se um dia fomos.

As histórias do meu pai sempre me impressionavam muito, ele sempre fora uma pessoa muito sincera, humana e visceral, jamais contrariaria seus instintos e suas histórias tinham um q de ficção, de surrealismo impressionante.

Ficava muito encantada em ouvi-las, talvez por que em minutos seguintes poderia contá-las infinitas vezes aos meus amigos, que morreriam de rir em todas elas.

Mas essa história era diferente, bem diferente. Era uma história em que a narrativa era surreal, porém a estrutura era perfeita, possuía início, meio e fim e em todos os momentos os fatos tinham ligação. Enquanto ele me contava, meus pensamentos cruéis iam mais longe e já imaginava que ao invés de contá-la aos meus singelos amigos, poderia contá-la ao mundo, poderia transformá-la em uma obra de arte (A loca!)!

Bom, vamos à história antes que as expectativas atrapalhem tudo.

Quando começamos a ferver as batatas, pude perceber que meu pai estava bastante triste, chateado mesmo por tudo que acontecera.
Eis os fatos: Ruth e papai estavam saindo há duas semanas – tempo em que normalmente nada de significativo acontece, ao menos para aquelas pessoas mais retraídas e um tanto regradas. Para um bom amante, uma semana já seria tempo suficiente para se apaixonar e deixar-se apaixonar, para se entregar aos braços de seu amado, fazer juras de amor.
Não era o caso de Ruth.
Ruth era o tipo de mulher que queria conquistar papai aos poucos, pedia para que fossem devagar – leia-se, nada de sexo - até se conhecerem melhor. Era o tipo de mulher que gosta de aparentar certo respeito por si própria, sem entregar o ouro ao bandido logo de cara, entende?
Para papai, um ser tão visceral, esse tipo de linguagem não funcionava muito, pois ao invés de estimular ainda mais a relação, ele a sentia amornando.

Sábado estrelado. Eis o dia da reviravolta. Papai estava apostando tudo nessa noite, sim, eu disse TUDO, afinal não tinha nada a perder.
E ao que percebeu, ao buscar Ruth em casa, ela também estava apostando umas fichinhas a mais. Estava exuberante, sexy, vestia uma mini-saia com suas lindas pernas amostra. Segundo as lembranças de papai fora um início de noite empolgante.

Papai como um cara fino que era levou Ruth para conhecer uns casais de amigos muito queridos, uns amigos de tempos e outros nem tanto, mas que se reuniram num sábado estrelado para conhecer Ruth, a nova namorada de papai.

A noite seguiu empolgante, todos já tinham bebido uns vinhozitos e embora não tivessem feito nenhuma mistureba de bebidas, a dose de vinho já tinha passado do limite há horas. Como todo bebum que se preze, todos estavam muito extrovertidos e conversavam muuito entre si. Papai ficou feliz de ver Ruth super inserida no bate papo. Aquela altura papai já estava considerando Ruth um bom partido para se investir, dentro dos singelos quesitos que ele pregava, como: ser extrovertida, bonita, se relacionar bem com seus amigos e não fazer joguinhos nem tipinhos. Ruth estava mais ousada que nunca e segundo confessaria papai chegou um momento em que a linha tênue entre ousadia e escracho começou a se misturar: Ruth estava praticamente embriagada, bebeu sem parar a noite toda, fumou inclusive um malborão, para espanto de papai que nem sabia que Ruth era adepta a esses vícios.

Lá pelas tantas, em meio a fumaça embriagante, Ruth resolveu pegar um ar na janela, afinal até ela estava percebendo que algo não ia bem e não ia mesmo. Ao se virar, com a mão por cima da testa, como que agonizando por algo que estava por vir, Ruth desmaiou. Não foi um simples desmaio, foi um desmaio com um escoamento de merda mole por entre suas lindas pernas.

Que momento! Pare e imagine a cena do filme: a criatura entre “amigos novos” e “namorado novo”, em sua primeira aparição de boas vindas, bêbada e cagada. Por sorte estava bêbada. Certamente sóbria, o baque seria bem maior.

Um parênteses, esqueci de contar a vocês, mas papai é um legítimo argentino, foi criado por duas famílias tradicionais de Buenos Aires. Falar em família tradicional de Buenos Aires - pra quem conhece um pouco os portenhos - automaticamente rememoramos algumas características: povo culto, bem educado, fresco muitas vezes e com uma aguçada veia crítica a ponto de se envergonhar por problemas alheios.
Eis o quadro negro: Ruth foi levada ao banheiro, aos pingos, para que tomasse um banho e quiçá purificasse a alma. Papai, único voluntário de plantão, teve que rever seus conceitos portenhos - enquanto seus amigos ficaram parados, perplexos, boquiabertos com o ocorrido, e por fim sorrateiramente foram a outra sala pegar um ar - e com um pano na mão, limpou gota por gota / fresta por fresta do chão de porcelanato branco do fino apartamento.

Não bastasse limpar toda a merda daquela estranha, sim, a essas alturas ela já se tornara uma estranha, afinal mal se conheciam, teve que presenciar a cena deplorável de vê-la sair do banheiro de pijama e cara lavada. Ora, não é de espantar, um parente ou pessoa próxima nessas condições já é difícil de agüentar, imagine uma estranha.

Ao terminar de me contar o que de fato acontecera, pois já estava ficando nervosa imaginando o que poderia ter sido, nem tocamos nas batatas mornas. Essa história era de prender a respiração, pobre de papai, que mais lhe passaria, estava tão chateado.
Bem ou mal, era um homem inteligente e sabia que essas coisas podiam passar com qualquer um.

Ruth ainda estava muito abalada, haviam se passado dias, mas não sabia bem como lidar com essa situação tão inusitada. De qualquer maneira, teve o bom senso e a delicadeza de ligar para a dona da casa se desculpando pelo ocorrido. “Mil desculpas, to tão envergonhada e abalada pelo transtorno que causei a vocês, fiquei muito chateada pelo ocorrido. Me desculpe, falo de coração. Você sabe, literalmente caguei minha relação.”

Já papai, embora visse que a equação (ir devagar + vergonha dos amigos + lembrança da caganeira) fosse difícil de dissolver de sua cabeça, achava que devia dar uma última chance a Ruth, nem que fosse como amigos.

Ao se encontrarem pela primeira vez depois do ocorrido e última vez de suas vidas, papai percebeu que a equação de seu romance falava mais alto. Terminaram.

Partimos direto para a sobremesa, saboreamos um queijo com goiabada da vó do Beto e foi nessa hora que papai me comovera muitíssimo:

“Minha filha, gostaria de não levar mais Ruth comigo, em minhas andanças, mas tem sido inevitável, pois cada vez que entro no sítio, duas a três vezes por dia, passo pelo arroio siquera e inevitavelmente me recordo dela. Pelo jeito, ela vai ficar um bom tempo na minha memória”.

Terminamos o jantar em silêncio. Levei-o até a porta e parti imediatamente pro computador.

4 comentários:

blogspy disse...

realmente sureal, essa história a Lu conta aos amigos toda vez que nos reunimos, e toda vez que ela conta a aflição toma conta de mim, espero nunca ter que passar por momentos do tipo "La merd" com minhas namoradas!!! Luana teu pai é um gentleman, ainda limpou tudo!!! bjão sucesso no blog!

OS OLHOS ABERTOS disse...

eu fiquei com peninha da moça.
:)

Bibi disse...

Adorei Lulu.
Tu escreve tri bem,querida.

Grão disse...

SE AINDA FOSSE TABUAO... MAS PORCELANATO BRANCO É DE F... POBRE MOÇA!